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terça-feira, março 30, 2004

Aos Olhares que se encontraram à sombra de um Anjo em Queda ( ou a Elegia do beijo espelhado, no lago da casa de Cristal )


Orquestra, Flor e Corpo David Mourão - Ferreira




Orquestra, flor e corpo:
doravante direi
como do corpo a música se extrai,
como sem corpo a flor não tem perfume,
como de corpo a corpo o som se repercute.

Orquestra, sim: orquestra. E flor. E noite.
Doravante dizendo orquídea negra
é logo o violoncelo nomeado;
e logo, logo, os instrumentos de arco
arremessando vão a flecha ao alvo;
e é logo o alvo peito;
e é logo amor,
e é logo a noite
murmurando "Até logo!" é outra noite...

De corpo a corpo a noite se transmite.
Orquestra, sim: orquestra. E flor. E vaga.
E a noite é sempre o corpo anoitecido,
e o corpo é sempre a noite que se aguarda.

De corpo a corpo o som se repercute,
de vale em vale,
de monte a monte,
de címbalo, de cítara, et coetera,
ao tímpano sensível que o recebe.

Sem concha do ouvido,
o mar não tem rumor.
Sem asa do nariz,
não voa a maresia.
E o mundo só é mundo enquanto houver o corpo,
de música e de flor universal medida.

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Nos frontões dum Parque soalheiro numa tarde de Inverno, divisava-se a palavra: Amor. Os olhares despidos da penúmbra, traziam em seu brilho, uma luz que iluminava o encontro... Recorrente de desejo... Uma magia de proximidade nas mãos, marcando pelo toque a forma do rosto que me ensinou o preceito de uma ternura até então desconhecida. Um sorriso triste em minha face, prenunciando as lágrimas vindouras. Intangível, um querer incorpóreo. Sem tempo, sem lugar... Na cidade velha onde nos conhecemos, a vida talvez nos tenha atirado demasiado tempo para longe de nós. Beijei-te numa noite estranha, à sombra de uma rústica porta verde... A cidade velha ficou para atrás, à medida que um comboio rasgava as paisagens bucólicas onde a distância das árvores transeuntes reflectia a medida das nossas vontades. Lia na geada e no vento, o teu nome... sonhava com um abraço de chegada... Com um beijo perene que me tornasse, o anjo que se ergue na música celeste da mudez das bocas unidas... Num murmúrio de um coração que bate contra um peito demasiado cansado para poder sentir o ar que lhe dá a vida. Nesse encontro, conheciamos a linear certeza da efemeridade... Sabiamos que no desencontro, se encontravam nossos corpos, nossos imaginários... Nosso momento de encontro, passado antes mesmo de ser presente. Sem tempo ao futuro... sem nome para ser chamado... Uma quimera sépia vivida em tempo real.
Nos parques onde te lia histórias felizes, encontrava a infelicidade de nunca poder ser mais do que fui. De nunca poder extrapolar, a tirania de não mais poder ser que um recriador de um desejo impossível... de uma vontade ausente. Eramos dois, sem sermos um... Desencontro, sempre mais que Encontro.
Assim restou a Poesia...restou a memória...restou o desejo...restou um tempo onde julguei ter em ti, a primeira e última razão de saber pelo teu Amor ser esse anjo... que na estátua, num esforço titânico se liberta das serpentes que o impelem à queda. As serpentes do vazio, do medo, da solidão...destruídas pelo beijo, pelo calor da melancólica imagem de um lago que reflete uma casa de Cristal, onde nossos corpos amantes feneceram felizes por todo o sempre... prostrados lado a lado, e mergulhados na magia de nos termos pertencido durante o breve sopro do desencontro encontrado. Por todos os motivos, de um Amor que nunca se materializou...e que julgámos divisar... como a luz de um dia que nunca vimos amanhecer, mas que sabemos que, pese a todo o tempo de treva, virá fulgente e radiante com o brilho de mil sóis. A um afecto, noutra vida... A um desejo de chegada, muito depois da partida... à ternura, primeira e última...
A uma viagem chamada...VIDA.

TOMAZ



Ternura David Mourão - Ferreira




Desvio dos teus ombros o lençol,
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do sol,
quando depois do sol não vem mais nada...

Olho a roupa no chão: que tempestade!
Há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
onde uma tempestade sobreveio...

Começas a vestir-te, lentamente,
e à ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo...

Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!



sábado, março 27, 2004

AVISO GERAL 27/3/2004


DE NOVO PARA RECORDAR-VOS O MAIL ONDE PODEM DIRIGIR OS VOSSOS COMENTÁRIOS :

Ao cuidado de João Tomaz : Ebn_al_Zaqqaq@hotmail.com

sábado, março 13, 2004

Valsa sem Nome Vinicius de Moraes



Nada poderia contar-te um dia o que é sofrer
Por teu amor
Mesmo a poesia não saberia contar-te nunca
O meu amor

Eu te amo tanto que o meu pranto
Corre, e corre apenas de lembrar
O teu encanto, o teu silêncio e essa magia
De te amar

Ó meu amado, a vida é nada
E o tempo é só, uma ilusão
Mas eu amo o tempo
Pois tu existes e eu tenho um templo no coração

Mas as palavras não têm som, nem cor
Para dizer do grande desespero
De te amar em prantos e te amando em prantos
Cantar novos cantos, proclamando o amor



Pitágoras, no reflexo da alegoria da relação matemática dos elementos da natureza. Da transcendente e da Humana natureza.
A equação do Amor, primeiro e último, qualquer base exponenciada a zero é igual à unidade. X º = 1. 2º = 1. Ou quando amamos, a indissociável expressão de exponenciamento das unidades ao zero, que as torna unas. Os encontros expressos em linguagem matemática. A vida como equação do todo Uno. Da unidade como expressão de centro de Universo. A exponenciação a zero, igual ao encanto e ao desencanto, igual a ilusão e ao palpável, a ascensão e à queda. Assim encontro, a fórmula da inevitabilidade. A expressão de destino, consentido ou oferecido. Destino...

Outros corpos, outras camas, outras luzes ténues que cessam no final da noite. Conservo a indolência primária... Espero afectos maiores que minha própria existência. Recordo uma estória... a última entrega. Já demasiado distante... Vagueio em diáspora às latitudes do silêncio. Aos contornos do rosto que se dissipa como areia fina que se escapa entre dedos, quando apertada. A miúda do Samba do Avião, fica em qualquer parte. Encontra-se nos antípodas do meu mundo. Demasiado distante... Eu, demasiado cansado para abrir meus olhos... Para esperar, a não dissipação desse milésimo rosto. Demasiado cansado, para evitar a minha própria dissipação...

Quando regressará, a imagem da Musa ? Quando escreverá ele, o espanto ? Quando regressará o Sol ? Quando e até onde...? O grande desespero de amar em prantos e amando em prantos, cantar novos cantos, proclamando o amor.... Silêncio, mais silêncio... Se possível... Ainda, agora e sempre, até a noite ser dia... 1 º = 1 ( Solilóquio do Poeta com o seu próprio Vazio ). TOMAZ

quarta-feira, março 10, 2004

De como a poesia fala por mim... por esta pluma bela


À inospita Poesia que me ensina a debitar bem mais palavras, que as que queria. A Poesia é uma forma de falar com uma imagem perfeita de mim. Quero falar de tudo, com a pluma que me liberta. Deus do Cálamo, das solidões e das displicências, presentes, passadas e futuras. Tomaz



Esta pluma... por Tomaz d´Orta



Esta pluma mata a solidão dos solilóquios.
Das paixões ansiosas.
Dos vazios pretéritos e presentes.
Esta pluma enche de vida, o corpo indolente.
Enche de força esta vontade ausente.
Esta pluma, arma que derruba os castelos da distância.
Que aproxima o Amor e afasta a grande Dor !

Esta pluma feita fantasia; feita quimera; feita desejo; feita magia.
Esta pluma tão maior que eu !
Esta pluma brandida ao céu. Brandida à Morte.
Aos presságios da borboleta, que nesta pluma poisa e se movimenta.
Esta pluma que rasga páginas transparentes, iguais à minha alma.
Esta pluma que rasga outras páginas... despidas, nuas e brancas.
Rasga a tristeza em esperança. Rasga o brilho dos olhares.
De apócrifos esgares... sem tempo ou sem lugar.
Esta pluma caprichosa, que escreve verso ou prosa.
Que escreve grandeza e miséria. Que escreve alegria e espanto. Que escreve silêncio e pranto.
Escreve até sem escrever, a delícia do querer e escreve pela Poesia, da vontade do regresso.
Escreve de anseio, escreve de sexo.
Escreve do que se quer sem se ter. Da esperança de viver, de vontade de morrer...de viver na solidão.
Sem pluma, sem ideia, sem página. Sem borboleta...
Escreve esta pluma sem aparente fim.
Escreve tanto, dessas coisas que tanto faltam em mim.

terça-feira, março 09, 2004

O Regresso do Anjo ou ainda, a Elegia do momento em que a Morte perdeu o seu Dom?nio.


Amo, amas Ruben Dário



Amar, amar, amar, amar sempre, com todo
O ser e com a terra e com o céu,
Com o claro do sol escuro do lodo:
Amar por toda ciência e amar, por todo desejo,
E quando a montanha da vida
Nos seja dura e longa e alta e cheia de abismos,
Amar a imensidade que é de amor acesa
E arder na fusão de nossos peitos mesmos!


Mergulho longo na escura água... Sem asas e sem voz bela. Òdio ao vazio. Ao único companheiro de caminho. Canso-me dos diálogos intermináveis entre mim e a extensão do aturdimento. Não conheço este Inferno, onde mergulhei. Apenas conheço, a dimensão da entrega, o limite ilimitado desse amor que agora se dissipa... e esse regresso a uma treva que me trará mais silêncio, mais poesia, mais taças melancólicas de esquecimento, para que um dia a Poesia se faça toque. Como Rimbaud, vagueio sem sentido, nas inóspitas paisagens de uma Abissínia metafórica, onde a aridez do campo é igual à aridez da alma. Quando se extingue a chama, perde-se bem mais que uma simples identidade. Perde-se a creença em caminhos melhores, por isso Passa e Esquece...

Passa e esquece Rubén Darío

Peregrino que vais buscando em vão
Um caminho melhor que teu caminho, Como queres que te dê a mão, Se meu estigma é teu estigma, peregrino?
Não chegarás jamais a teu destino; Levas a morte em ti como o verme
Que te rói o que tens de humano...O que tens de humano e de divino!
Segue tranquilamente, Oh! Caminhante! Ainda te fica muito distante
Esse país incógnito que sonhas...E sonhar é um mal.
Passa e esquece, Pois se te empenhas em sonhar, te empenhas
Em aventar a chama de tua vida.


Por isso, apesar de ambiguo, no sonho recuperamos a imagem quimérica...A única que pretendemos real, quando mergulhados no Vazio, esse sim, Djinn tirano da alma que destroi. No sonho, na noite, o peso de nos carregarmos fica atenuado, latente. Os dias opressivos, as noites silenciosas, mas uma esperança forte e clara, que a noite traga bem mais que o silêncio... Que a noite me traga a delícia do toque que procura o toque, do corpo que procura o corpo e das mãos dos amantes que se fundem para que o passo se faça leve e puro. Que os passos juntos tragam consigo a força de um grande Amor. Branco como as asas do Anjo Israfel... E que venha a noite, e que venha o sonho...

E que venha a noite... Carlos Enrique Ungo


Presenteia-me o riso de teus olhos
a ténue luz de teu sorriso
o milagre de teu nome
em minha boca.
Presenteia-me a humidade de teus beijos
o tíbio manto de teu abraço
o mar embravecido de teu corpo
junto ao meu.
Presenteia-me o amanhecer de tuas paixões
o espelho frágil de tuas chuvas
tua inocência feita mulher
com minhas carícias.
Presenteia-me teu amor,
amor.
E que venha a noite...



O que me assusta na noite ? o Silêncio. O meu próprio silêncio... Uma alma silenciosa, que nada diz ao monte de escolhos que a alberga. Tento entender, os sinais. Amaldiço-o os astros hostis... Culpo o vento da falta de palavras... sonho com realidade num tempo de sonho... Sonho com Amor e Poesia, que escrevo e não possuo. Guardo a memória como um estorvo, onde não cabe bondade... E espero tão somente, que a Alma conheça as respostas, e abra com a Chave do Silêncio, a grande festa de não ser no afecto, uma imagem solitária e ausente. Um prelúdio da busca incessante.


Prelúdio Antonio Porcchia



Que nos assusta tanto do silêncio?
Por que chamar em nosso auxílio o ruido?
(Sons harmoniosos, rudes ou violentos,
porém ruídos ao fim. Ao fim sons).

Tememos do silêncio a eloquência?
Encontraremos ao fim nós mesmos,
responder a pergunta que a ciência
não pode responder em seu silêncio?

Quem sou, por que estou neste mundo,
qual ? a razão de minha existência?
Vale o chorar silencioso, vale o rir alegre?
Valem, enfim, a luta e a violência?

Deixemos que o silêncio nos inunde
para que Deus responda no silêncio,
no vértice mesmo em si fundem
o empenho divino e nosso empenho.

Assim conhecerá a alma sua resposta
e a dirá a mente, sem palavras,
celebrando do culto a grande festa
que com a chave do silêncio se abra


Resgato do Silêncio, tempo em que não sei que ganho, mas bem sei, que perco... Perco a vontade de me perder, perco a vontade de me reerguer, de me reconstruir, de erguer aos céus todos os desesperos que me grassam... Quem me vai responder a esta Dor? Porque tem de me pertencer tão inevitável, tão própria, tão e apenas, tão e tão só minha... Quem vai apagar deste rosto as lágrimas? Que posso aprender, senão desencanto. Vil desencanto por tudo o que tenho desejado... tudo o que tenho perdido. Este é o meu sentido de dispersão, de como as palavras de outro tempo se transormaram em silêncio nefando. De como não vislumbro a saída... todavia, sonhando, ansiando, querendo, amando os silêncios e as quimeras. Quando retornará a mim, a carícia perdida sublimando-me...


A carícia perdida Alfonsina Storni



Sai-me dos dedos a carícia sem causa,
Sai-me dos dedos...
No vento, ao passar,
A carícia que vaga sem destino nem fim,
A carícia perdida, quem a recolher??
Posso amar esta noite com piedade infinita,
Posso amar ao primeiro que conseguir chegar.
Ninguém chega. Estão sós os floridos caminhos.
A carícia perdida, andar?... andar?...
Se nos olhos te beijarem esta noite, viajante,
Se estremece os ramos um doce suspirar,
Se te aperta os dedos uma mão pequena
Que te toma e te deixa, que te engana e se vai.
Se não vês essa mão, nem essa boca que beija,
Se é o ar quem tece a ilusão de beijar,
Ah, viajante, que tens como o céu os olhos,
No vento fundida, me reconhecerás?



Assim , às asas do Anjo... que vagueia na sombra dos Silêncios, resta-lhe amar o Amor. Vago, Próximo, Alheio...mas presente. A amar bem mais que a angústia de o não sentir. Um Poeta sem amor, cria a maravilha, definhando em seu desepero. Por todas as esperas que já fiz, que me restam por fazer, morro sem o Amor. Sem o Amor aos pequenos nadas, pequenos tudos, que nos fazem sentir o todo da nossa vida... A Poesia são as lágrimas deste anjo, que morre de Amor, qual Poeta que se dedica a assistir placidamente à erosão dos afectos próprios, e que apenas reencontra na brancura fria da página... em solitária margem de sonho, as imagens que sublimam quem o lê e que a si o derrubam. Amo, simplesmente, amo...e morrerei de Amor, quando ele morrer comigo. Estou triste...



Poema LXVI Pablo Neruda



Não te quero senão porque te quero
e de querer-te a não querer-te chego
e de esperar-te quando não te espero
passa meu coração do frio ao fogo.
Te quero só porque a ti te quero,
te odeio sem fim, e odiando-te te rogo,
e a medida de meu amor viajeiro
é não ver-te e amar-te como um cego.
Talvez consumirá a luz de janeiro,
seu raio cruel, meu coração inteiro,
roubando-me a chave do sossego.
Nesta história só eu morro
e morrerei de amor porque te quero,
porque te quero, amor, a sangue e fogo.


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